O ônibus, na insistência em não variar, estava lotado. Todos cansados e com a cara de abuso de um fim de dia. E não bastasse a dor de cabeça provocada pela zoada infernal do motor, havia um estudante abençoado ouvindo seu funk preferido nas alturas. O detalhe: nada de fones de ouvido.
Indignada com a audácia, que é normal aqui pelos busões de Fortaleza, uma senhora resolveu criar coragem e partiu para o embate com o jovem. “Meu filho, estou morrendo de dor de cabeça e esse som alto é um desrespeito, ainda mais com essa letra de funk”, disse. Após uma bronca dessas, você pode imaginar a cena mais provável. O rapaz pausa o áudio indesejado, abaixa a cabeça e pede desculpas, constrangido.
Não foi bem isso que aconteceu. Pelo contrário, o cara ficou revoltado e replicou a pobre senhora: “Qual é tia? Tá moscando? O nêgo paga o ônibus pra fazer o que quiser, oura! Eu tô pagando! A tia está é com inveja que o nêgo tem caixa de som e tia não. Tá reclamando, desça do ônibus”.
Essa história de desrespeito, contada pelo estudante universitário Davidson Rodriguez, 21, é apenas mais uma da realidade barulhenta que assola o interior das latarias azuis da Capital cearense. Ele relatou ao Busão Fortal sua revolta contra essa cultura bizarra dos autofalantes portáteis. “Em todo ônibus que você entrar sempre vai ter aquele cara chato que não sabe da existência de um acessório chamado ‘fone de ouvido’”, desabafou.
Davidson continua: “Você acordar cedo já sabendo que vai ter que pegar o ônibus lotado, isso já dá uma infelicidade, todo aquele alvoroço matinal e lotação. Aí você vai, morrendo de sono, pra parada de ônibus e assim que entra já sente a disputa de ‘paredões’. Já tocando um forrozão nas alturas e o cara pensa: Challenge Accepted (Desafio Aceito). Aí começa a competição de quem coloca o som mais alto, as coisas mal equalizadas, os funks com letras bem feitas e uns reggaes de dar dó no ouvido”.
Segundo ele, os passageiros são obrigados a aturar “um cara que coloca som altíssimo num celular ou naquelas caixinhas de som que viraram moda que todo doido tem, e que ainda acha que todo mundo está gostando. Ás vezes se empolga e ainda canta junto”. Davidson termina seu depoimento esperançoso. “Até quando isso vai durar, hein? Espero que seja só uma moda”.
Para o estudante de jornalismo Juscelino Filho, falta bom senso e noção de respeito àqueles que promovem a poluição sonora. “No dia que alguém, com um som mais potente, sentar do lado de um usuário de 'mini-caixa-de-som-que-enche- o-saco' e ligar o paredão com um gênero diametralmente oposto ao do companheiro de assento, o infeliz vai aprender como os outros se sentem”, argumenta.
Portanto, pessoas que cometem este ato, nosso transporte público não precisa de DJs. Se quiser ouvir música, compre bons fones de ouvidos e prejudique apenas sua própria audição. #fonesdeouvidojah

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